Nov 8, 2009

Show must go on ...


A intervenção aqrueológica no São Pedro terminou, finalmente, após 36 meses de trabalhos de campo. Agora, resta-nos a memória vivida e aquela que conseguirmos construir a partir dos mais de 3000 desenhos e 8000 fotografias. Este será, certamente, um trabalho não de uma mas, espero, de muitas vidas, fazendo com que o desmantelamento destes sítio não tenha sido em vão.

Este foi o fim de uma longa jornada, por onde passou mais de uma centena de estudantes, para os quais, espero, tenha sido uma boa escola de campo. A todos eles, e em particular a alguns, o meu Muito Obrigado!

Oct 8, 2009

E as frágeis muralhas resistem ...







No São Pedro, são ainda as muralhas, simbólicas, que resistem ao avanço da maquinária ... Serão estas as últimas a cair ... são e serão sempre o simbolo da resistência ...

Esta construção, já é do Passado ...




O São Pedro, tal como o fomos conhecendo e vivendo, já faz parte do Passado. Resta-nos a imagem que dele fomos construindo ...

Aug 21, 2008

D. Bastião e sua Barbacã

O povoado de São Pedro não pára de nos surpreender. Para além da enorme complexidade estratigráfica e de faseamento, vemos as estruturas multiplicarem-se e entrecruzarem-se.

Se no ano passado foi a estranha construção rectangular, da Fase III (ou primeiro período intermédio, sem fortificação), este ano foram detectadas outras, das quais se destacam uma portentosa barbacã, na estrita concepção do termo, e um poderoso bastião com mais de 5m de largura máxima ...

E ainda continuam, inocentemente, a crer que estas eram afáveis construções de reunião e convívio ... estamos antes perante complexas construções poliorcéticas, claramente desenhadas com propósitos específicos ...

















Construção rectangular, de 2007















Barbacã



















Bastião

Jul 10, 2008

O Paraíso ... nas traseiras do Modelo

No Alentejo o final do IVº/início do IIIº milénio a.C. surge-nos como um dos momentos de maior e mais intensa ocupação humana do território. Pela primeira vez grandes massas humanas parecem concentrar-se em extensos povoados dotados de amplas estruturas comunitárias.
Damos aqui notícia da identificação de mais um destes locais de povoamento detectado no Alto Alentejo.
A identificação deste local deixa bem claro como todos, da sociedade civil aos especialistas, temos uma função na identificação e protecção do Património Arqueológico, e de como as estruturas centrais de Salvaguarda devem actuar e interagir com essa mesma sociedade civil.
O povoado da Horta do Paraíso foi identificado por Anaísa Mexia nas traseiras do Modelo de Elvas, de modo casual e não dirigido, ao observar as obras que então decorriam de recuo de um muro de sustentação de terras Este facto expôs abundantes materiais arqueológicos, e evidenciou a presença de pequenas bolsas, eventualmente de estruturas negativas pré-históricas. De imediato se comunicou aó Instituto da tutela, que procedeu em seguida de modo a minimizar as destruições e caracterizar mais aprofundadamente as afectações, presentes e futuras. Perante este facto fui contactado pelo promotor da obra, que desde o primeiro momento se mostrou altamente cooperante com os trabalhos a desenvolver.
Os trabalhos efectuados constaram da limpeza de 9m de corte onde se observavam vestígios de estruturas negativas de época pré-histórica, para além de claros estratos de ocupação que sobrepunham estas estruturas devidamente preenchidas, evidendiando diacronias de ocupação aparentemente longas.
Uma observação atenta de todo o corte da obra permitiu identificar uma ocupação que tinha em corte cerca de 100m de comprimento, ainda que pontualmente os estratos pré-históricos se reduzissem ou mesmo desaparecessem. Esta extensão foi confirmada por prospecções esparsas na Horta e inclusivamente para fora desta, permitindo identificar um povoado com vários hectares, implantado numa suave encosta de um extenso patamar que medeia entre as elevações de Elvas e as planícies férteis do Caia.
O conjunto artefactual, claramente da viragem do IVº para o IIIº milénio, era maioritariamente composto por cerâmica e abundante fauna. Na cerâmica as taças carenadas são bastante frequentes, assim como alguns bordos espessados. Os pesos de tear crescentes estão bem documentados, mas não os tipo placa.
Bem, o Horta do Paraíso parece tratar-se de mais um extenso povoado do IVº/IIIº milénio, que se localiza no centro de uma região onde está documentada uma intensa rede de povoados destas cronologias, desde os pequenos povoados de fossos (como Santa Vitória) ou com muralhas (caso do Castelo da Afeiteira), até aos extensos povoados de fossos como Juromenha 1.

Dec 3, 2007

O Passado a Preto e Branco

A tradição medieval, recriada durante o Romantismo europeu, ou mesmo pela Nossa DGEMN, construiu-se sob uma forte marca de penumbra bucólica e lacrimejante dos românticos, ou mais ascética e cinzentona do nosso Portugal Salazarento. Todavia, sabe-se hoje, num momento onde a cor e o movimento são a tónica, que as lúgubres catedrais medievais eram verdadeiras explosões de cor e movimento, que nem os mais aberrantes abusos barrocos suplantavam.
Todavia, e apesar de se conhecerem já importantes estudos e apelos à cor na Pré-história, pouco se tem feito por cá.
O caso que aqui trago, mais que um apelo à cor nos monumentos, é uma chamada de atenção à sensibilidade cromática pré-histórica na construção da paisagem dos antepassados.
A utilização direccionada e selectiva das matérias-primas, apesar de um evidente cariz funcional, era muitas vezes ordenada segundo um critério distinto, onde a questão cromática não seria despicienda. A conjugação do granito com o xisto, ou do calcário com o xisto é disso bem evidente, como ficou bem patente na monografia de Alcalar 7. No recentemente intervencionado monumento da Marcela (em escavação por Nuno Inácio, Catarina Oliveira e David Calado), próxima de Santa Rita (Cacela), uma vez mais, as questões cromáticas foram realçadas, como os escavadores bem notaram em visita que efectuei ao monumento. A entrada surge selada por porta de calvário, tal como o lintel da mesma, demarcando a área de passagem para a câmara sepulcral construída em Grés, ficando também clara e transição entre dois mundos.
No Alentejo, onde a aparentemente monotonia do cinzento do granito parece dominar, pouco se tem intentado nesses campos, ainda que as variações dos granitos possam introduzir importantes contrastes cromáticos. Por outro lado, o quartzo, muitas vezes elemento dominante nas construções tumulares, jogaria papel relevante na realidade cromática.
Todavia, gostaria de realçar, em particular, o caso das “Mamoas Negras” enquanto realidades cromáticas de contraste paisagístico com a envolvente.
Na realidade, desde há uns anos que estas me trazem intrigado, quer pelas questões inerentes à sua construção, quer pela sua inserção na paisagem.
Há uns anos, na companhia de Leonor Rocha, identificaram-se dois destes casos de “Mamoas Negras” no concelho de Redondo, na Herdade das Casas e na do Colmeeiro, que constam, essencialmente, de uma estrutura tumular, que envolve uma câmara megalítica, de tonalidade bastante escura, negra, com aspecto bastante argiloso, com frequente material arqueológico, que nos surge claramente contrastante com o solo envolvente, esbranquiçado, resultante da desagregação dos granitos.
Tal fenómeno, apenas é perceptível quando o solo se encontra livre de vegetação.
Numa primeira leitura interpretámo-lo como resultante da utilização de terras provenientes do povoado para a construção da estrutura tumular, atendendo à sua coloração mais orgânica e à presença de materiais arqueológicos cerâmicos e líticos. Assim penso efectivamente que tivesse sido. No entanto, a questão cromática não deveria ser despicienda, ajudando a compor o conjunto cénico do Monumento, alertando, eventualmente, para a ligação da cor escura aos contextos de um Mundo subterrâneo, dos Mortos. Por outro lado, este mesmo contexto, poderia estar relacionado com a presença de rituais associados às épocas das sementeiras quando se lavravam os campos para cultivo, evidenciando o contraste cromático realçado pelas primeiras chuvas.
Na envolvente do monumento das Casas, trabalhos recentes de prospecção, evidenciaram uma notável quantidade e diversidade de pequenos painéis com covinhas, que Passado marcariam simbolicamente este espaço, físico e mental, podendo igualmente associar-se a questões cromáticas, hoje totalmente desaparecidas. Assim, a paisagem construída pelos elementos actuantes conjugava o contexto cromático Natural, com os elementos contrastantes humanos, que simbioticamente se conjugavam numa Paisagem Múltipla de Cores e Sentidos.

Mar 19, 2007

Megalitismo intemporal…

Com este post pretende-se iniciar um espaço de debate em torno de questões relativas à perpetuação dos espaços megalíticos como locais significantes na construção das Paisagens alentejanas, em particular durante a Proto-história.
A necessidade de entendimento destas realidades megalíticas numa perspectiva diacrónica tem vindo a colocar um sem número de questões que esbarram, principalmente, na falta de dados e na devida valorização de alguns elementos, muitas vezes marginais, que testemunham a longa vida de um monumento.
Com uma longa tradição de investigação que sempre fomentou uma visão especializada crono-espacialmente, os outros momentos da existência de um monumento foram sendo sistematicamente apagados das leituras “sincrónicas” que deles se faziam. Exemplo paradigmático desta situação são as colossais obras do casal Leisner de onde, como afirmam taxativamente algures, foram extirpados todos os dados não relevantes para as leituras culturais pré-históricas, ainda que assinalem a sua presença frequente. Todavia, ironia do destino, será justamente o velho e clássico Megalithgraber uma das fontes mais relevantes para a identificação das utilizações da Idade do Bronze no megalitismo alentejano, talvez pela incapacidade de as isolarem, dado o grande desconhecimento que tinham, e temos, sobre a Idade do Bronze da região.
A utilização dos Monumentos Megalíticos ao longo da Proto-História do Centro-Sul do país esteve certamente associada a novas e velhas estratégias sociais, que não poderemos resumir a estratégias de legitimação de poder, como se tem feito até ao momento.
A complexidade das utilizações e dos rituais, que muito certamente lhe estariam associados, ajudariam a construir um Passado e uma Memória individual e colectiva socialmente activa no presente e estruturante no futuro.
Intenta-se, então, a Construção de um novo Passado que, agora como antes, passe pelo retornar ao Monumento, dotando-o de novos significados.